quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A polêmica sobre a série Super Drags


A nota de repúdio de um deputado do Acre, pedindo providências ao Ministério Público, além do pedido de cancelamento da série, feita pela Sociedade Brasileira de Pediatria, mostram, mais uma vez, que as pessoas parecem não entender muito do meio sobre o qual estão falando.
Não critico a preocupação com o que as crianças assistem. Ela é necessária, claro. O que eu critico são os argumentos e as exigências.
Animações ("desenhos") para jovens adultos/adultos existem há anos e a Netflix tem vários exemplos, inclusive mais "pesados" que Super Drags (Police Paradise, Big Mouth, Rick & Morty...). Mas todos tem classificação de idade e não vão aparecer no perfil KIDs,
A série é classificada para acima de 16 anos, ou seja não é para crianças. E isso fica bem claro.
"Ah, mas a série mostra heróis e quem se interessa por heróis? As crianças."
Não. É só prestar um pouco de atenção no mundo do entretenimento para perceber que heróis sempre fizeram sucesso com crianças E adultos. Há vários conteúdos de heróis para adultos, na Netflix (Demolidor, Justiceiro, Defensores...) e no cinema (Logan, Deadpool). Crianças se interessam? Claro, mas aí é que entra um item até então ignorado: a responsabilidade dos pais.
Se você, pai, não fica atento ao que seu filho assiste na internet, se ele está acessando seu perfil da Netflix, a culpa não é da plataforma, é sua.
Até porque ele pode ver conteúdo não indicado no Youtube ou em outros sites explicitamente adultos, muito piores que a série.
Ou seja, os pais tem de assumir a responsabilidade pelo que os filhos assistem/fazem na internet e o governo e organizações deveriam se preocupar em como tornar isso possível.
Em tempo: no link da matéria, há uma imagem em que Netflix responde a uma mensagem do deputado, no Twitter, mostrando como colocar senha para que não se possa ver nada a partir de determinada classificação etária. Ou seja, recursos há. Basta informação.

Leia também: https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/super-drags-deputado-pede-providencias-ao-ministerio-publico-em-relacao-a-animacao/

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Escolhendo entre as piores opções, que nós mesmos escolhemos



E começo a semana desanimado.
Não só pelo resultado das urnas. Sim, por isso também.
Triste porque essas eleições trouxeram à tona o perfil do brasileiro, não só em geral, mas daqueles que estão próximos a nós. E ele é mais feio do que a gente imaginava.
Opiniões políticas divergentes são normais e necessárias. Mas faltou, eu muitos, respeito. Empatia, entender porque o outro pensa daquela forma e faz aquelas escolhas.
Isso não é de agora, vem de muito antes, quando usaram nossa revolta contra a corrupção e transformaram em ódio contra o PT. Sim, por mais que se fale que trata todos os políticos corruptos iguais, é a notícia do PT que você compartilha, é a piada com a Dilma que vai pra frente, é o meme com o Lula que ganha destaque. Não estou defendo o PT ou qualquer integrante do partido. PT foi a minha maior decepção política, pois eu acreditava que era um partido diferente, quando se mostrou ser apenas mais um. Quero que todos os culpados das acusações sejam presos. Entretanto, não sou inocente a ponto de não perceber que isso foi, estrategicamente, usado pela oposição para tirá-los do poder. Sim, nos usaram. Eu e você.
Naquela época já começou a falta de respeito a quem pensava diferente, a divisão em dois lados, preto e branco, bem ou mau, verde-amarelo e vermelho, como se fosse tão simples assim.
E nasceu a ideia que se consolidou. Qualquer coisas é melhor que o PT. QUALQUER COISA.
Foi assim que Bolsonaro cresceu. Primeiro como algo diferente, engraçado, com suas tiradas lacradoras, trazendo respostas rápidas e simples, que todo mundo já ouviu ou falou dentro de suas casas, ou seja "mitando", como dizem. Matar a bandidagem, trazer de volta os "valores morais", defender o "cidadã de bem", "direitos humanos para humanos direitos", definições bem questionáveis mas, acima de tudo, livrar o país do PT. E aí, vale QUALQUER COISA.
Claro, havia um terreno fértil para seu crescimento: a internet.
Ah, internet. Diziam que ela viria para aproximar as pessoas. Que estaríamos entrando na era da informação. Eu, acreditava que a humanidade evoluiria mais rápido com a chegada da tecnologia, da globalização. Porém, o que se vê muito é as pessoas cada vez mais nos seus mundinhos, consumindo cada vez mais informação fast (trash) food e regurgitando como se fossem detentores de toda o conhecimento do mundo.
Se antes as pessoas liam pouco, agora, que têm conteúdo (a maioria, ruim ou inútil) em seus bolsos, a um clique, a tendência é ler menos, conversar menos, olhar menos para o mundo e mais para seu umbigo. E quando se faz isso, você fecha sua mente, fecha seus ouvidos e para de exercitar o raciocínio. Aí as teorias da conspiração ganham força. Porque não se tem mais tempo e nem vontade de se conferir se tal notícia é real ou ao menos tem lógica. "Vamos repassar, vai que...". Ainda mais se falar algo que reforça uma ideia que já acredita. Você passa a desconfiar da mídia tradicional, pois agora a "verdade" está chegando por grupos de whatsapp e pelo Facebook.
 Do "curtir essa foto pro Face pagar U$0,01 pra criança doente", até "a Terra é plana e esconderam isso da gente", é só uma questão de tempo.  Não se acredita mais nos livros de física e geografia, não se acredita mais nos livros de biologia (aumenta cada vez mais o medo de vacina, por exemplo) e não se acredita mais nos livros de história. Ah, aqueles professores de história, todos esquerdalhas!
A Era da Informação pode levar à Era da Ignorância se as pessoas não acordarem.
Vi notícia verdadeira ser chamada de fakenews. Vi uma enxurrada da fakenews. Vi fakenews de correção de fakenews. Vi fakenews tão rudimentar que estava na cara que foi feita pelo próprio grupo ofendido de modo a desmoralizar o outro. Ou se achava que tudo aquilo era verdade, ou, o mais importante era vencer a batalha nas redes sociais. De qualquer modo, todo mundo perdeu.
Aliás, os marketeiros políticos souberam muito bem como utilizar a internet, com notícias verdadeiras e falsas, para angariar votos para os seus clientes. Até os memes engraçados que você compartilha saem, em sua maioria, desses caras. Fomos usados, novamente.  
Decepcionado também fiquei, como católico, com muitos católicos e evangélicos. Estranhei suas escolhas, mas me decepcionei mesmo por muitos usarem a Bíblia, o nome de Deus a religião para ofender e atacar seus irmãos por pensarem diferente ou para defender seus candidatos. De boas, o candidato que mais clama pela preservação da "moral, dos valores cristãos da família", dá vários exemplos não cristãos, então não use isso como argumento. Até porque já vimos muita coisa ruim acontecer em nome de Deus e dos valores morais de uma determinada religião. Ah, idolatria também é pecado, não é, amigos?
O que faltou foi discussão de ideias, de projetos, principalmente sobre os candidatos que polarizaram as pesquisas. Mais importante era derrotar o PT. Mais importante era derrotar o Bolsonaro.
Enfim, estamos numa sinuca de bico, numa saia justa, num "impossible sitution", como diria Jack Bauer.
Dificilmente Haddad vai virar o jogo, porque é muito, muito difícil fazer quem não votou no Bolsonaro votar no PT, em quantidade suficiente.
A ideia de QUALQUER COISA é melhor que o PT é muito forte. E, convenhamos, nunca "escolher o menos pior" foi tão difícil.
E, mesmo se isso acontecer, é capaz de dizerem que eleição foi uma fraude (como já insinuaram) e pedirem intervenção militar (como já insinuaram), e a população entrar na onda, afinal QUALQUER COISA é melhor que o PT. 
Já quanto ao plano de governo do Bolsonaro, nada do que eu vi parece sólido e conciso, ou que trará um bem verdadeiro ao país, em vários aspectos. No mínimo, não vi nenhuma competência. Pelo contrário, o que estou vendo tem me deixado preocupado.  E ele atrai gente de má índole, isso é inegável. Não que todos que votam nele o sejam, mas o discurso dele atrai esse tipo de gente e ele não faz nada para mudar isso. Com sua vitória, e muitos do partido dele, que são até piores, esse tipo de pessoa vai achar que tem liberdade pra fazer o que quiser. Se ele tivesse um pouco de bom senso, enfatizaria em seu discurso a importância do respeito às instituições, ao próximo, aos adversários. Mas ele não o faz, não com a ênfase necessária. Prefere estacar, em sua "live" pós primeiro turno, que vai acabar com a "farra das multas do Ibama" e acabar com os "ativistas". Ou seja, dane-se a ecologia e o meio ambiente.
Enfim, quando o seu governo começar a fazer mer..., e vai fazer, a mídia vai noticiar, mas não vão dar crédito, pois, afinal, a mídia e comprada. E se vierem com projetos que tirem direitos, em prol de deter a "esquerdalha", vão aplaudir, pois é tudo para proteger o Brasil do comunismo.
Porque muitos dos eleitores e políticos do Bolsonaro se tornaram iguais a mutos eleitores e políticos do PT: não enxergam os erros do seu lado e não admitem estarem errados. Sem isso, fica difícil melhorar.
E não dá nem pra pensar em impeachment, pois o vice é pior que ele.
Enfim, espero que o Brasil aguente por quatro anos, sem muitos retrocessos e que possamos realmente aprender algo de útil com tudo isso. Quem me conhece, sabe que sou uma pessoa otimista, mas tem sido difícil esses tempos, meu amigo, tem sido difícil.


domingo, 4 de junho de 2017

As "vantagens" de ser extremista

Texto que li na revista Superinteressante de março de 2017.
É do comediante John Gleese, do Monty Python, nos anos 80, mas atualíssimo:
A gente tem ouvido muito falar sobre extremismo recentemente. O clima está duro, agressivo: muito desrespeito e pouca empatia.
O que nunca se ouve por aí é sobre as vantagens de ser extremista. E a maior delas é que o extremismo faz você se sentir bem. Ele te proporciona inimigos, afinal.
E com inimigos você pode fingir que toda a maldade do mundo está neles, enquanto toda a bondade reside em você.
Se você se juntar à esquerda radical: seus inimigos serão todas as  formas organizadas de autoridade, especialmente a polícia, mais os juízes, os Estados Unidos, as multinacionais e os moderados.
Agora, se você preferir ser um extremista de direita, sem problema, vai ter uma lista adorável de inimigos: minorias, sindicatos, manifestantes, socialistas e, naturalmente, os moderados.
Uma vez armado de uma dessas listas de inimigos, você pode fazer qualquer perversidade e, ainda assim, ter a certeza de que seu comportamento é justificável.
O extremismo, no fim das contas, tem uma única desvantagem: ele não resolve problemas.
Resolver problemas, afinal, envolve coisas frustrantes, como ouvir pessoas com pontos de vista diferentes do seu, e aprender com isso.